quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O palco imundo da História


Paulo Melo

Por Clio, quem provavelmente nunca antes se interessou pelo campo da história, a não ser como leitor eventual, se eleva agora à condição de arqui-inimigo da regulamentação da profissão. Trincheiras inexpugnáveis se erguem do nada contra o que acreditam ser uma absurda reserva de mercado para os historiadores diplomados. Sou historiador diplomado, defendo a regulamentação, mas não quero carregar o peso de ser o portador DO discurso autorizado sobre o passado. Não é isso que esta em jogo. Desejo a regulamentação, mas não defendo monopólios. Historiadores não diplomados, infinitamente melhores do que eu, fizeram tanto pela disciplina que não ousaria propor uma ditadura do diploma. Não é isso que defendo com a regulamentação. Regulamentar significa valorizar e reconhecer a profissão. Significa que o historiador passa a ter um reconhecimento social e que se passa a exigir uma formação específica na área para atuar em determinadas atividades (alguma coisa de mal nisso?). Até onde entendo, isso não entra em contradição com a face interdisciplinar que caracteriza o campo da história. Não impede que um professor com sólida formação musical, e conhecedor de história da música, possa lecionar a disciplina de História da Música num curso de história. Porém, precisamos reconhecer que o projeto apresentado por Paulo Paim não deixa isso claro. O texto do projeto, particularmente no Art. 5, parece sugerir um fechamento da disciplina para os não diplomados.

No blog “O Palco e o Mundo”  , o escritor Pádua Fernandes publicou no dia 20 de novembro um post contundente, intitulado “Memória como reserva de Mercado V: astros e historiadores”, contra o Projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador apresentado por Paulo Paim (confira). O texto de Pádua é bem mais organizado e consistente que o texto escrito por Fernando Rodrigues para a Folha de São Paulo há alguns dias. Pádua parece estar mais bem informado, articula alguns pontos da critica que vem sendo feita ao projeto e lhe empresta argumentos mais sólidos. Ao contrário de Fernando Rodrigues, Pádua leu atentamente o documento, fez relações entre os artigos do projeto e cotejou com o estatuto da ANPUH (e julgou encontrar contradições). Foi mais longe. Desmontou a tímida resposta que a ANPUH contrapôs à matéria publicada na Folha, questionando o “discurso da autoridade” evocado logo no começo do texto. Sei das boas intenções e reconheço o gesto nobre da presidência da ANPUH. Mas não surtiu o efeito desejado. Todavia, foi uma resposta polida e respeitosa.

O texto de Pádua – e o que ele representa - merece resposta mais atenta. Não basta desqualificar corporativamente o autor acusando-o de ignorância na área, de estar a serviço de algum grupo de interesse ou simplesmente atacando-o com frases agressivas que visam abafar o debate. O texto merece resposta qualificada, argumentativa, serena e, sobretudo, esclarecedora. A resposta da ANPHU foi para consumo interno, para dar uma satisfação aos historiadores, não ao público. O argumento do “discurso da prova” sem um devido esclarecimento aos não-historiadores cai no vazio e na irrelevância. Não é para mim nem para os meus colegas que a ANPUH deve responder, mas para o Pádua, para os seus leitores, para os leitores brasileiros que não possuem diploma em história nem tem obrigação de saber sobre o “discurso da prova” (tema para especialistas em historiografia).

Esperamos muito tempo por este momento. Precisamos nos colocar com mais clareza e desmontar a tese do monopólio sobre a memória e o passado que corre solta entre os críticos do projeto de Paim (entre eles alguns historiadores). O projeto dá, sim, margem para se pensar coisas desse tipo. Basta ler com atenção. É o momento de rever, propor e desfazer mal entendidos. Afinal, nós não pretendemos silenciar o debate nem nos tornamos proprietários de tudo aquilo que carrega a palavra “história”, não é mesmo? São os “combates pela história” (para lembrar o mestre) no tempo presente.

“Amo a história. Se não a amasse não seria historiador. (...). Amo a história – e é por isso que estou feliz por vos falar, hoje, daquilo que amo.” Lucien Febvre, "Combates pela História".

Da “voz do dono” à história profissional – dois séculos de disputas



Por Valdei Araujo

A aprovação do projeto que regulamenta a profissão de historiador no Senado tem provocado reações furibundas de certo “jornalismo” contra o projeto. Usando da desinformação e do espaço nobre que ocupam na grande imprensa procuram ridicularizar a iniciativa em um movimento concertado para bloquear o projeto na C

âmara dos Deputados. Mais do que opiniões individuais, essa reação revela um pouco da longa história da formação da historiografia como disciplina científica.

O surgimento da história como uma disciplina autônoma no século XIX em todo o Ocidente, mesmo com ritmo variado em cada contexto, acompanhou a crescente importância do conhecimento e da interpretação histórica na vida política das sociedades. Com a perda de centralidade do discurso religioso, o homem precisava decidir pelo seu destino individual e coletivo sem o recurso a uma fonte externa e oculta de legitimação.

Um primeiro sintoma dessa nova importância da história foi a multiplicação das narrativas e versões sobre o passado, em especial aquele mais recente, produzindo como efeito colateral uma profunda crise de confiança no discurso histórico. Afinal, se cada grupo político, religioso, partidário ou governo pudesse “contar” a sua própria versão da história sem qualquer controle interno sobre a sua validade e qualidade, o conhecimento histórico perderia, assim como o discurso da revelação religiosa, qualquer capacidade de nos orientar sobre os valores e as decisões coletivas.

Um pouco como reação a esses “usos e abusos” a historiografia foi deixando de ser apenas um ramo das “Belas Letras” para lentamente adquirir métodos e procedimentos capazes de regular a qualidade e confiabilidade do que estava sendo escrito como história. O veto a documentos falsos e não-originais, a crítica orientada pela busca de conhecimento correto e não apenas o da confirmação dos valores do presente sobre o passado (anacronismo), o estabelecimento de limites éticos rigorosos para o que um historiador poderia ou não escrever sobre o passado, o controle e a crítica dos pares em periódicos científicos, dentre outros procedimentos. Claro que tudo isso não produziu um conhecimento puro e objetivo do passado, mas foi capaz de impor limites ao seu uso político e ideológico.

O simples uso ideológico do passado o tornaria socialmente irrelevante, deixando ao poder e a força o monopólio sobre a verdade – um pouco o que a grande imprensa hoje quer impor à sociedade brasileira e mesmo ao judiciário. Provas, para quê, basta a opinião, a nossa opinião para julgar e condenar, para dizer como foi o passado e como será o futuro. Contra tudo isso foi construída uma disciplina histórica fundada nas condições de prova e na busca de um conhecimento efetivo, mesmo que limitado. Não é de se estranhar, portanto, que venha exatamente dessa grande imprensa e de suas “penas” os ataques ao projeto de regulamentação da profissão do historiador. É mais um capítulo de uma relação sempre tensa entre a historiografia profissional e os interesses “na história”, interesses comerciais (inclusive editoriais) e políticos.

Na década de 1840 tivemos uma polêmica mais densa do que a que vivemos hoje, talvez uma farsa daquele debate. Movido por uma visão política e manipulado por interesses editoriais/financeiros, o General Abreu e Lima publicava em 1843 um “Compêndio da História do Brasil” que era anunciado pelos editores como a primeira história nacional escrita por um brasileiro. Quando saiu do prelo, um jovem e ambicioso pesquisador, que seria no futuro o autor de nossa primeira história nacional em sentido moderno, Francisco Adolfo de Varnhagen, escreveu uma resenha demolidora demonstrando ser a “história” de Abreu e Lima na maior parte um mero plágio, uma simples tradução da História do Brasil de Alphonse Beauchamp. O próprio livro de Beauchamp havia sido denunciado como um plágio da pesquisa do historiador inglês Robert Southey. Hoje sabemos por pesquisas recentes que todo aquele embate significava a emergência de uma historiografia autoral, fundada em pesquisa original, na organização dos grandes arquivos nacionais e em novos padrões de direitos autorais e de responsabilidade científica.

O projeto aprovado no Senado apenas complementa um processo de disciplinarização do discurso histórico moderno.

Portanto, não é de se estranhar que interesses políticos e comerciais de indivíduos e grupos levantem-se contra o projeto. Como no passado, eles também querem atribuir valor aos seus discursos, ao saque que muitas vezes cometem à pesquisa historiográfica e científica, sem ao menos citar seus autores, confundindo suas escrevinhações com o discurso histórico controlado socialmente por meio de instituições como universidades, arquivos e bibliotecas. O projeto não lhes impõe nenhuma restrição, apenas reconhece a dignidade do trabalho do historiador. O reconhecimento da profissão consagra uma solução que permitiu a este profissional (assim como ao jornalista profissional) não ter de se sujeitar ao constrangimento que no passado grandes talentos como Justiniano José da Rocha tiveram de se sujeitar, o de escrever de acordo com a “voz do dono”. Ao denunciar essa triste realidade na célebre caricatura que ilustra esta postagem, Manuel de Araujo Porto Alegre estava ao lado dos historiadores e de todos aqueles que produzem ciência por vocação.

Saiba mais sobre a polêmica, autoria e plágio no século XIX brasileiro:

MEDEIROS, Bruno Franco. Plagiário, à maneira de todos os historiadores: Alphonse de Beauchamp e a escrita da história na França nas primeiras décadas do século XIX. Dissertação. DH/USP. 2011. Orientadora: Iris Kantor. (No prelo pelo Paco Editorial)

MATTOS, Selma Rinaldi de. Para formar os brasileiros. O Compêndio da História do Brasil de Abreu e Lima e a expansão para dentro do Império do Brasil. Tese. USP-DH. 2007. Orientadora: Maria Ligia Coelho Prado.